28.5.10

Não sei porque ainda venho
feita dorida

tudo queimou
ou pelo menos assim o parece

Morreu tão nova.
uma pena.

17.7.09


Lançamento: 25 de julho, sábado, pelas 19.30h no Café In







18.4.09

Mood: Joana Melo, Rifoneiro

ai se eu tivesse a coragem
[ai se eu tivesse a coragem]
de fazer a viragem
sem amuletos da sorte.

Que às vezes não mudar
é uma espécie de morte.
Ai se eu tivesse a coragem
de m' implicar num povo
Os muros caíam, e esta rua era algo novo

Larga a acidez
que deitas no que lês.
Se um voto não muda nada
Que se mude mais dois ou três.
é preciso é coordenada.

Há quem não valha nada
Há quem valha muito
Há quem valha todo um mundo
É preciso é coragem
pra ir sem medo a fundo.

Haja coragem gente boa
pra fazer o que destoa
pra irritar uns quantos
amar à louca, infantilmente.

Há que atracar com coragem
uma vez por todas, finalmente.

15.4.09

A

que
da.


Esse rapaz
não é meu não m' engana
Não chama, vem-me buscar

Se me sirvo crua,
tão cortês,
larga tudo e ao invés...

Me entrega o cansaço
à porta de um abraço, qual recado
Cai menino desarmado

Despista na curva
que é seio e cintura.
E jura. A queda por mim.

O meu rapaz
se procurou
num deslize assim

E.
Se alegrava, alongava
moribundo no ventre

Um homem renasce sempre.
quando sai diferente
de uma mulher

quando perde a fúria
como quem já não a quer.
tamboreava o peito, embalou

Tão doce m' foi entrando,
o mundo doeu baixinho.
e na curva sossegou.

Há um rapaz.
tantas e boas vezes
daquela queda me matou.

27.10.08

Há um cantinho no teu ombro...
sabe a coisa que vem por Bem
Nesse canto há pai e mãe.

Fastio sem culpa ou dor
No cantinho do teu ombro
passam-se coisas do amor

Há mar a salgar o encosto
Teu calorzinho é sol no rosto
Vinho encorpado é Deus também

Cheiro do cigarro, discurso embrulhado
na paz. Há um cantinho no teu ombro
que me convém e satisfaz

E é tão bom e é por bem
esquecer tudo o que se tem
findo o caminho nessa outra,

o cantinho que esconde
um sorriso em tua boca.
[De me achares palavra pouca.]

Mas nele há um poema
maior do que eu própria sei
Um homem merece, que o digam também.

"Há um cantinho no teu ombro."

10.10.08

António Lobo Antunes em entrevista à Sic Notícias a respeito do último livro, O arquipélago da Insónia:

"Conheci um homem, que por sinal era meu pai, que de manhã ao fazer a barba..."

"Não penso nos leitores quando escrevo, só em desembaraçar-me do material disponível"

"Quando alguém lê adoece... há uma espécie de fagocitose... aquilo toma conta de nós. Quando o livro termina começa então a convalescença"

"Quando me dizem que o nosso país é pequeno fico furioso. Para mim chega bem... e já é enorme"

"Ele, não sendo muito inteligente, tinha coisas bem mais importantes que isso."

"Porque é o leitor que é importante não o escritor (...) é ele que faz o livro"



Talvez nem faça sentido descontextualizar assim idéias mas são pedacinhos de um todo que soube bem. E se é que se pode dedicar um post, da mesma forma que se dedica um pensamento generoso, uma energia boa ou uma vontade sincera, este é para uma amiga, cheia de paixões, entre elas a literatura, que acordou finalmente após um sono demasiado longo e guerreado. Bom ter-te de novo.

19.6.08

Mood: Regina Spektor, Samson

O jogo começava
a miudagem toda lá estava
No recinto surdo
um eco de percussão.

Joana a um canto apertada
inaugurava o coração
torcendo a vitória de onze
por um só João.

Suava pela bola
o homem, p'ra já rapaz
adiantando às raparigas
do que era capaz.

Ela batia palmas
abrindo alas a um festejo seu
mas João por timidez
chutou p'ra canto e encolheu.

Sublimou o embaraço
por inchaço de pavão
acenou de qualquer mão
às raparigas ao lado.

Coração pontapeado
da grande área
p'ra linha solidão
Joana zero, um-zero João.

Um dia vê-a já senhora
tanto jogos e finais depois
e em vez de uma,
agora jogavam dois.

Ela. Ainda embalava a rua
ontem pura hoje dança
O amor adulto alheio
era seu recreio de criança.

Ela. Quem dera ter-lhe dito
sempre embalara a rua
e desse querer secreto
que [ainda que a prolongamento]
a vitória fosse sua.

Joana zero, zero João
moral da história: timidez
empata o coração.



17.6.08

Brevíssimo conto do homem convencido- I

Mood- Henry Mancini, Baby elephant walk



Mário era de idade tenra. O ar altivo, só possível na fase ascendente de crescimento. A realidade da vida adulta cedo ensina que tudo aquilo que sobe, desce. Nem desconfiava disso ainda. A primeira experiência de trabalho transportava-o agora para o interior de um fato executivo tão desajustadamente como se para dentro de um escafandro, dois tamanhos acima do seu. Era demasiado magro. Uma magreza colada secamente às costas, de mãos no cinto para prevenir eventuais desgraças. E não fosse alguém perceber da sua estranheza com tecidos vincados, esforçava-se por franzir um olhar descontraído, e estalar a língua no céu da boca para contrariar aquilo que outros diziam. Enquanto os questionava, não era questionado.

No alto dos seus vinte e poucos anos reinava pouca coisa senão meia dúzia de cabelitos, sobreviventes corajosos à perseguição genética da calvície. Penteava-os, dono de si e desses fios solitários, enfiando logo depois as mãos a pique nos bolsos, ensaiando uma elegância empresarial, que se afundava de imediato nas calças vincadas que lhe fugiam pela magreza adolescente.

Era contudo já herdeiro de uma educação exigente e denotava cultura acima da média, denunciando, não-poucas vezes, toda uma linhagem familiar de psicólogos aos quais, pasme, tinha conseguido sobreviver sem grande mácula. Nada para além da usual intelectualidade neurótica e do narcisismo de patinho feio, característico dos filhos de excelsos professoresdoutores da cátedra. Mas a verdade é que Mário não era 'um chato'. Tinha aliás uma graça natural.

Apresentou-se-me como convencido assumido, e que o era porque sabia que na maioria das vezes fazia tudo... mesmo... melhor do que os outros. Portanto, não lhe fazia sentido ser preconceituoso consigo próprio, estava claro. E ajeitava a gravata, navegando logo de seguida mais um pouco nos bolsos das calças engomadas. Tinha uma honestidade castiça, que não provocaria fúria em nenhum lugar do mundo, e um mau hálito assustador. Só o olfacto de homem convencido recusa o agitar de salvação de uma caixa de pastilhas e ainda assume o tom moralista de advertência: "faz mal aos dentes". Mas o Mário podia ter mau hálito e até uma voz medianamente fanhosa, que a tinha. Era boa companhia.

Falava pela sua vez, e pela vez do interlocutor, o que, nos dias de maior aborrecimento e cansaço, me preenchia com a boa ilusão de que estava a conversar activamente, apesar de demasiada exausta para proferir um som que fosse. Interiormente agradecia-lhe. Ao regressarmos cada um para sua casa, no final de dia, eu acompanhava o seu "monólogo assistido", cerebralmente, e na minha cabeça somavam-se trailers, bandas sonoras e cenas clássicas pois tinha uma cultura cinematográfica e musical impressionante.

Mostrava músicas que gostava, filmes que tinha visto, géneros que o fascinavam. Entenda-se: o Mário podia ter mau hálito, porque conversar com ele era bom. Em pouco tempo já me esquecia sequer de lhe oferecer pastilhas, e passando mais algum, tê-lo-ia adoptado, com toda a segurança. No meio de músicas, frequentemente expunha a gravata à procura de aprovação ou reprovação estética por parte da mulher mais velha que ganhara a sua consideração ao assumir o uso da saia e o gosto por cognac. Elogiava-me os vestidos, e os vestidos apenas, na esperança calada de que tinha o charme na dose certa para um dia os poder despir. Mas porque até os convencidos são realistas rapidamente voltava à pergunta da gravata, desta feita com o tom com que se pergunta a uma mãe.
"-Siiim, essa também te fica bem."

Um dia, ao ligar-se a luz nocturna do interior do autocarro, exausta e de olhos presos nos resíduos de chuva que desciam a vidraça, apercebi-me que fazia já algum tempo que não aparecia. Convenci-me eu, convencido que era, que teria encontrado um outro escafandro mais à sua altura e diâmetro. Fiquei contente com a idéia, até chegar em surdina de corredor o boato de que alguém o tinha dispensado das suas funções. Ao perguntar porquê responderam: " Disseram-lhe... com jeitinho... que ele não tinha muito jeito para falar com pessoas".

Este mundo é demasiado duro, até para os convencidos.

24.5.08

Com entrada directa para o top 5 dos melhores dvd's de música que por aí andam. Seriamente genial. Lenine in Cité, neste tema que tem uma "onda" simplesmente.... Façam o favor de ser felizes e ouvir até ao fim.


Colaborações de "Lênini" com os nossos por cá...

Maria João & Mário Laginha


E com Pedro Abrunhosa. O diabinho que há em nós gosta muito disto, admitam.


2.5.08

28 de Maio, ao vivo no Teatro da Trindade

Coisas que se têm dito por aí fora na blogoesfera a respeito deles...


«É sobretudo um trabalho de bom gosto, que como alguém disse "nos convida a reflectir sobre o presente, embora não descure o passado"» http://adlibitumviseu.blogspot.com

«Uma das minhas bandas de selecção lançou hoje o single de lançamento do segundo album e como sempre surpreenderam-me (...) Estarei na fila para o comprar...» http://grandesmares.blogspot.com

«Mais uma vez eles conseguem elevar a música a outro patamar, sem nunca perder a universalidade da fácil compreensão.» http://www.diasdeblog.net

«descortinei um album surpreendente, muito rico de pormenores, com um cheiro intenso a Portugal. (...) É imperdoável passar ao lado» http://maufeitio05.blogspot.com

«É como andar a 160km/h, esboçar a cabeça pela janela e não se conseguir respirar. Assim se prova que há musica. E que até é portuguesa. Provocam-se desconcertos (...) É nestes momentos que (...) se dá valor ao instinto.» http://inprelude.blogspot.com

«Na passada 6.ª f, por mero acaso, assisti à actuação (...) num programa da RTP. Não conhecia o grupo, (...) achei fantástico» http://voleiblogue.blogspot.com

«A presença em palco destes senhores é fantástica. Este foi, sem dúvida, um dos concertos mais envolventes a que já assisti.» http://therainclouds.blogspot.com


Finalmente podemos revê-los. 28 de Maio na Sala Principal do Teatro da Trindade, pelas 21.30. Bilhetes à venda na FNAC e http://www.ticketline.pt/



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