
17.7.09
18.4.09
ai se eu tivesse a coragem
[ai se eu tivesse a coragem]
de fazer a viragem
sem amuletos da sorte.
Que às vezes não mudar
é uma espécie de morte.
Ai se eu tivesse a coragem
de m' implicar num povo
Os muros caíam, e esta rua era algo novo
Larga a acidez
que deitas no que lês.
Se um voto não muda nada
Que se mude mais dois ou três.
é preciso é coordenada.
Há quem não valha nada
Há quem valha muito
Há quem valha todo um mundo
É preciso é coragem
pra ir sem medo a fundo.
Haja coragem gente boa
pra fazer o que destoa
pra irritar uns quantos
amar à louca, infantilmente.
Há que atracar com coragem
uma vez por todas, finalmente.
15.4.09
| A que da. Esse rapaz não é meu não m' engana Não chama, vem-me buscar Se me sirvo crua, tão cortês, larga tudo e ao invés... Me entrega o cansaço à porta de um abraço, qual recado Cai menino desarmado Despista na curva que é seio e cintura. E jura. A queda por mim. O meu rapaz se procurou num deslize assim E. Se alegrava, alongava moribundo no ventre Um homem renasce sempre. quando sai diferente de uma mulher quando perde a fúria como quem já não a quer. tamboreava o peito, embalou Tão doce m' foi entrando, o mundo doeu baixinho. e na curva sossegou. Há um rapaz. tantas e boas vezes daquela queda me matou. |
27.10.08
| Há um cantinho no teu ombro... sabe a coisa que vem por Bem Nesse canto há pai e mãe. Fastio sem culpa ou dor No cantinho do teu ombro passam-se coisas do amor Há mar a salgar o encosto Teu calorzinho é sol no rosto Vinho encorpado é Deus também Cheiro do cigarro, discurso embrulhado na paz. Há um cantinho no teu ombro que me convém e satisfaz E é tão bom e é por bem esquecer tudo o que se tem findo o caminho nessa outra, o cantinho que esconde um sorriso em tua boca. [De me achares palavra pouca.] Mas nele há um poema maior do que eu própria sei Um homem merece, que o digam também. "Há um cantinho no teu ombro." |
10.10.08
| António Lobo Antunes em entrevista à Sic Notícias a respeito do último livro, O arquipélago da Insónia: "Conheci um homem, que por sinal era meu pai, que de manhã ao fazer a barba..." "Não penso nos leitores quando escrevo, só em desembaraçar-me do material disponível" "Quando alguém lê adoece... há uma espécie de fagocitose... aquilo toma conta de nós. Quando o livro termina começa então a convalescença" "Quando me dizem que o nosso país é pequeno fico furioso. Para mim chega bem... e já é enorme" "Ele, não sendo muito inteligente, tinha coisas bem mais importantes que isso." "Porque é o leitor que é importante não o escritor (...) é ele que faz o livro" Talvez nem faça sentido descontextualizar assim idéias mas são pedacinhos de um todo que soube bem. E se é que se pode dedicar um post, da mesma forma que se dedica um pensamento generoso, uma energia boa ou uma vontade sincera, este é para uma amiga, cheia de paixões, entre elas a literatura, que acordou finalmente após um sono demasiado longo e guerreado. Bom ter-te de novo. |
19.6.08
Mood: Regina Spektor, Samson
O jogo começava |
17.6.08
Brevíssimo conto do homem convencido- I
| Mood- Henry Mancini, Baby elephant walk |
Mário era de idade tenra. O ar altivo, só possível na fase ascendente de crescimento. A realidade da vida adulta cedo ensina que tudo aquilo que sobe, desce. Nem desconfiava disso ainda. A primeira experiência de trabalho transportava-o agora para o interior de um fato executivo tão desajustadamente como se para dentro de um escafandro, dois tamanhos acima do seu. Era demasiado magro. Uma magreza colada secamente às costas, de mãos no cinto para prevenir eventuais desgraças. E não fosse alguém perceber da sua estranheza com tecidos vincados, esforçava-se por franzir um olhar descontraído, e estalar a língua no céu da boca para contrariar aquilo que outros diziam. Enquanto os questionava, não era questionado.
No alto dos seus vinte e poucos anos reinava pouca coisa senão meia dúzia de cabelitos, sobreviventes corajosos à perseguição genética da calvície. Penteava-os, dono de si e desses fios solitários, enfiando logo depois as mãos a pique nos bolsos, ensaiando uma elegância empresarial, que se afundava de imediato nas calças vincadas que lhe fugiam pela magreza adolescente.
Era contudo já herdeiro de uma educação exigente e denotava cultura acima da média, denunciando, não-poucas vezes, toda uma linhagem familiar de psicólogos aos quais, pasme, tinha conseguido sobreviver sem grande mácula. Nada para além da usual intelectualidade neurótica e do narcisismo de patinho feio, característico dos filhos de excelsos professoresdoutores da cátedra. Mas a verdade é que Mário não era 'um chato'. Tinha aliás uma graça natural.
Apresentou-se-me como convencido assumido, e que o era porque sabia que na maioria das vezes fazia tudo... mesmo... melhor do que os outros. Portanto, não lhe fazia sentido ser preconceituoso consigo próprio, estava claro. E ajeitava a gravata, navegando logo de seguida mais um pouco nos bolsos das calças engomadas. Tinha uma honestidade castiça, que não provocaria fúria em nenhum lugar do mundo, e um mau hálito assustador. Só o olfacto de homem convencido recusa o agitar de salvação de uma caixa de pastilhas e ainda assume o tom moralista de advertência: "faz mal aos dentes". Mas o Mário podia ter mau hálito e até uma voz medianamente fanhosa, que a tinha. Era boa companhia.
Falava pela sua vez, e pela vez do interlocutor, o que, nos dias de maior aborrecimento e cansaço, me preenchia com a boa ilusão de que estava a conversar activamente, apesar de demasiada exausta para proferir um som que fosse. Interiormente agradecia-lhe. Ao regressarmos cada um para sua casa, no final de dia, eu acompanhava o seu "monólogo assistido", cerebralmente, e na minha cabeça somavam-se trailers, bandas sonoras e cenas clássicas pois tinha uma cultura cinematográfica e musical impressionante.
Mostrava músicas que gostava, filmes que tinha visto, géneros que o fascinavam. Entenda-se: o Mário podia ter mau hálito, porque conversar com ele era bom. Em pouco tempo já me esquecia sequer de lhe oferecer pastilhas, e passando mais algum, tê-lo-ia adoptado, com toda a segurança. No meio de músicas, frequentemente expunha a gravata à procura de aprovação ou reprovação estética por parte da mulher mais velha que ganhara a sua consideração ao assumir o uso da saia e o gosto por cognac. Elogiava-me os vestidos, e os vestidos apenas, na esperança calada de que tinha o charme na dose certa para um dia os poder despir. Mas porque até os convencidos são realistas rapidamente voltava à pergunta da gravata, desta feita com o tom com que se pergunta a uma mãe.
"-Siiim, essa também te fica bem."
Um dia, ao ligar-se a luz nocturna do interior do autocarro, exausta e de olhos presos nos resíduos de chuva que desciam a vidraça, apercebi-me que fazia já algum tempo que não aparecia. Convenci-me eu, convencido que era, que teria encontrado um outro escafandro mais à sua altura e diâmetro. Fiquei contente com a idéia, até chegar em surdina de corredor o boato de que alguém o tinha dispensado das suas funções. Ao perguntar porquê responderam: " Disseram-lhe... com jeitinho... que ele não tinha muito jeito para falar com pessoas".
Este mundo é demasiado duro, até para os convencidos.
24.5.08
| Com entrada directa para o top 5 dos melhores dvd's de música que por aí andam. Seriamente genial. Lenine in Cité, neste tema que tem uma "onda" simplesmente.... Façam o favor de ser felizes e ouvir até ao fim. |
Colaborações de "Lênini" com os nossos por cá...
Maria João & Mário Laginha
E com Pedro Abrunhosa. O diabinho que há em nós gosta muito disto, admitam.
2.5.08
28 de Maio, ao vivo no Teatro da Trindade
| Coisas que se têm dito por aí fora na blogoesfera a respeito deles... «É sobretudo um trabalho de bom gosto, que como alguém disse "nos convida a reflectir sobre o presente, embora não descure o passado"» http://adlibitumviseu.blogspot.com «Uma das minhas bandas de selecção lançou hoje o single de lançamento do segundo album e como sempre surpreenderam-me (...) Estarei na fila para o comprar...» http://grandesmares.blogspot.com «Mais uma vez eles conseguem elevar a música a outro patamar, sem nunca perder a universalidade da fácil compreensão.» http://www.diasdeblog.net «descortinei um album surpreendente, muito rico de pormenores, com um cheiro intenso a Portugal. (...) É imperdoável passar ao lado» http://maufeitio05.blogspot.com «É como andar a 160km/h, esboçar a cabeça pela janela e não se conseguir respirar. Assim se prova que há musica. E que até é portuguesa. Provocam-se desconcertos (...) É nestes momentos que (...) se dá valor ao instinto.» http://inprelude.blogspot.com «Na passada 6.ª f, por mero acaso, assisti à actuação (...) num programa da RTP. Não conhecia o grupo, (...) achei fantástico» http://voleiblogue.blogspot.com «A presença em palco destes senhores é fantástica. Este foi, sem dúvida, um dos concertos mais envolventes a que já assisti.» http://therainclouds.blogspot.com Finalmente podemos revê-los. 28 de Maio na Sala Principal do Teatro da Trindade, pelas 21.30. Bilhetes à venda na FNAC e http://www.ticketline.pt/ Faz um uso digno e responsável do download. Roubar música ARRUINA as bandas, e DESTRÓI a possibilidade de emergirem novos projectos de valor acrescentado para o país. |
19.2.08
Mood: Sérgio Godinho, Espalhem a notícia
| Teus olhos lápis de cor amor São pontas de lança gatos rasteiros atrevimento de criança. Tudo o que houver no mundo tudo o que é veludo me veste, de pele em ti. Podemos o mundo Este verbo transitivo cresce quente, age profundo. Só peço demais por te achar tão-só contigo [meu amor me cabia no bolso Tinha de o trazer comigo] Bem sei, não sou melhor ou o que convém mas quando crua sou metade tua, sobro inteira, me acrescento mulher. Diz que nasceste de mim que sempre foi assim É tão urgente que me queiras mais que a toda a gente |
Só peço demais por
te achar tão-só contigo
[meu amor me cabia no bolso
Tinha de o trazer comigo]