29.1.08

Mood: Radiohead & Sigur Rós, Split sides (live)

Cinco, seis anos, talvez. A mão miniatura reconhecia ao longo da parede uma viga de madeira escura envernizada que afunilava num corredor profundo. "Cá estamos nós de novo". Uma outra mão imensa sempre vinha, quase maior que os cinco, seis anos, pegando nela inteira para ir corrigir o que estava errado no seu organismo.

O fundo do corredor das urgências era uma gruta escura e apertada para o alívio, onde pessoas de branco faziam coisas boas mas más a crianças cheias de preto por dentro. A antecipação era já em si mesma o início de tudo, mas os adultos gigantes sofrem mais porque o espaço que ocupam é maior. Por isso havia que os poupar, e fazer crer que os artifícios lúdicos à volta dos instrumentos invasivos os tornariam menos agressivos ao corpo e ao medo. À medida que se aproximava a gruta, o frio húmido ficava denso e mais difícil de penetrar as narinas. Da boca saía agora um fumo frio e vagaroso que as pessoas mais altas não viam, só as outras crianças; e do escuro musguento já os ouvia à espreita, a patinhar as paredes rochosas para onde não fossem vistos pelos gigantes. A patinhar, mesquinhos, as paredes e o tecto, por toda a parte.

À medida que se aproximava o fundo do corredor, a gruta, o coração tamboreava subindo à boca; mas a boca desmantelava a percurssão em sorrisos para atirar beijos, às duas únicas metades que há num afecto infantil. Há mentiras que as crianças sabem desde logo que são as verdades necessárias; e o amor com os pais revela-se muito aí, no engano mútuo, convencido de que é eficaz para ambas as partes. O que não é visível a olho nú é que o mundo interior de uma criança adoecida é sempre maior que a sua aparência pequena. Lá dentro há sempre um gigante magano.

Na sala cor de rosa da enfermaria os lençóis eram uma manta corrida de BD'S, um patchwork de cores, letras e figuras vivas que marchavam num tapete rolante de acesso dali para fora. A alternativa era a mesma perspectiva estática dos detalhes impessoais e das paredes com tinta de areia. Lá pelo meio, decorações de uma alegria de autocolante e de um natal asséptico. A realidade bidimensional de estar doente, ou não. Nos momentos em que era já possível andar pelo próprio pé trazia pela trela o suporte do soro -o garante de muitas coisas agora- pois na cama em frente havia um menino que estava pior e gostava de histórias. Tentava cumprir a hora em que a enfermeira lhe trocava os instrumentos de tortura, pois enquanto os olhos e o peito borboleteiam em aventuras heróicas o corpo lá em baixo fica exactamente do tamanho que tem: pequenino. Ele sentia menos as inoculações sucessivas no seu pé quando esgrimia violentamente um dragão e lhe rasgava a carne zangado. E se lhe contava histórias não era por altruísmo mas porque viajava com ele e esgrimia também. A fantasia é uma arma que as crianças criam para viver melhor e que os adultos deitam fora quando metem na cabeça que isso os faz viver pior. É por isso que uma criança imagina bruxas mas o adulto cria fogueiras -porque a dada altura perdeu a sua fé.

As madrugadas eram inebriantes como uma droga. Às vezes escapava-se água do corpo já inerte do cansaço absurdo. Às vezes ouvia ainda o sinal sonoro da frequência dos rádio táxis horas antes, uma memória auditiva que, toldada pelos fármacos, soava a uma alucinação de socorrismo. Mas os crescidos não conseguiam ler o gigante cansado lá por dentro, por isso ela entristecia e ele fumava, vingando-se mais contra o próprio corpo, pelo ar que teimara não entrar na criança que era sua, entregue lá dentro a homens de diploma. Diplomas que sabem pouco de estar separado daquilo que a própria carne gerou mas não consegue remendar. Os internamentos sucediam-se e as madrugadas inquietas no Hospital atropelavam-se em rituais de ida e vinda. Mas. Depois da agitação. Depois tudo terminava sempre da mesma maneira disruptiva: o sossego da madrugada como uma negação. Os braços cinzentos e o corpo não me pertencendo, habitado como um lugar muito chatinho, que no final de tudo precisava apenas de um outro corpo, feito colo e forma, que ajudasse a reencontrar o meu molde original.

" E agora aos poucos, cada um ao seu ritmo, pode regressar à sua respiração, às sensações do vosso corpo...e abrir os olhos. E então, ocorreu-vos alguma imagem?"

27.1.08

Por isso vou indo
até te chegar. calada
onde sei não saber nada
Palmilha nua feita verdade
Luz âmbar no Rossio

Figura e segue lenta a cidade
como quem já a viu
vezes demais. E também a mim.
nos dias de guerra, os tais
que tardámos por aí assim.

Sábios do nada, do bastante,
do que importa e é quente
Nossa arte simples,
de intenção tão diferente

Teu cerco a mim era assim
alegria cercada de gente
Sorriam como fosse sua.
Há sinais de ti no cheiro
da terra e em cada rua

E seria do mundo inteiro
num mundo de trazer em paz
De qualquer homem bom. Mas
só teu fundo me aprofunda rapaz

E a verdade da guerra
lutar pelo lugar perto do teu.
Só por teimares não dizer
que o lugar sempre foi meu.

Ficámos velhos e cansados.
Não há meio de irmos deitar.
[Vá lá.]
sabes bem rabujento meu mar
sou rio suave até te chegar.

1.1.08

Mood: Beirut, Nantes

... A cidade morreu. O primeiro dia do ano não parece certamente um festejo de entrada, mas antes de desfecho. Ponto. E são coisas mesmo diferentes, até mutuamente exclusivas. Vê-se pelo abandono que se lhe dedica naquele que deveria ser o dia inaugural: a cidade parece moribunda de tão oca que está. Ou então são as pessoas, simplesmente cansadas do excesso, a inaugurar a privacidade e circunscrever o cansaço. Deveria haver uma pausa de um mês no calendário, para acertar contas e descansos, depois então entrar tranquilamente no novo ano. Do tipo: "Pronto, então agora sim vamos lá a isso." Diz-se que no calendário Maia há um dia designado 'o dia sem tempo'. Talvez no dia 1 de janeiro sejamos todos um pouquinho disso também.



O cansaço era grande por isso no regresso a casa, entre o tecto cinzento de Lisboa, o abandono e o alcatrão silencioso, só corria o motor do carro e um
moodzinho.