28.10.07

Fome. Procuro visualizar nas minhas próprias vísceras algo próximo. Aproximo-as. A condição de ser humano coloca-nos a priori num patamar de necessidades constantes, supridas em alternância, num esquema circular de equilíbrio-desequilíbrio que, sob um certo prisma, nos torna algo patéticos e (em certa medida) eternamente dependentes e similares. Também por esse motivo os seres humanos são encantadores, mas simultaneamente tão ridículos e desrealizados quando sustentam o próprio envelope em matéria de rápido desgaste. Pergunto-me, se a dita matéria de amparo desaparecesse subitamente sob os seus pés... se saberiam cair com a mesma elegância forjada. Pelo contrário, cairíam violentamente desamparados gritando desaforos bem abaixo da sua condição, trazendo à tona aí sim a verdadeira matéria. Porque os homens são assim, frágeis à força da gravidade. Todos temos de parar para ir abastecendo, e quando caímos sem aviso, somos todos igualmente desastrados e risíveis.

A fome. Há um aspecto fronteiriço que a define -a possibilidade de conceber a sua finitude a curto prazo ou não. Hoje ouvia esta mulher idosa perdida no abandono de uma terreola alentejana chorando a dor que a fome lhe trepava à garganta, e ocorria-me como a possibilidade de resolução é em si mesma um alimento. Falava do frio, possivelmente sintoma também da subnutrição, e chorava. Sem teatro nem orgulho, mas exactamente na medida da sua ânsia. Ouvir alguém chorar com fome é coisa eterna. Um eco agudo que se propaga pelo corpo à velocidade dos nervos, como mergulhar de uma só vez num mar gelado. Os pulmões estanques de ar frio. Sentia-me diminuída em volume, cada vez que numa golfada de ar se abria um novo soluço de dor, do corpo que lhe doía por causa da fome. Os kilómetros de distância apagaram-se e fecharam as nossas vozes juntas até ao escuro em que ela se debatia. Havia um silêncio quase espiritual. O silêncio do abandono soa muitas vezes assim. Fiquei imóvel, amarrotada e alentejana entre os seus cobertores no quarto frio, lado a lado, sentindo-lhe o hálito já seco, e cristais de sal a cercar-lhe os olhos que imagino pequenos. Fiz o que me era esperado; prometi-lhe, no frente-a-frente de narizes frios, a ajuda que não sabia se iria chegar. Depois que já não a ouvia senão dentro da minha cabeça, vi-me sentada de novo e senti-me cair sem qualquer elegância. Desajeitada. Odiei a ilusão presunçosa deste trabalho que faço, à semelhança de todos os envelopes que adoramos dobrar com requinte mas sem um vinco de humanidade. Há dias em que inevitavelmente nos sentimos fraudulentos e isso também é uma espécie de fome.

20.10.07

Mood: Nouvelle Vague, In a manner of speaking


O raio das palavras.
As ditas e não ditas.
As agidas e acobardadas.
As lamechas e as baças.
As palavras sem palavra
de promessas apalavradas
As palavras poéticas
e a poética sem forma.
Palavras fáceis palavras suadas
Consequências e origens.
Sua necessidade, sua repulsa.
O somatório convencionado.
Tenho-me debruçado
Sobre conceitos e categorias,
e no inverso, a liberdade.
Tenho debatido o poder criador
a confusão linguística criada.
Nas guerras dos homens em parlamento
nas guerras de amor sem negociação a tempo.
No entendimento das línguas
com meias palavras.
Nos livros nobelizados e
nas narrativas privadas.
Nas palavras legendadas;
na tradução dos óbvios.
Nas palavras de facto pensadas.
Na palavra com hálito e na palavra com delay.
Na palavra do hetero que afinal
palavra que era gay.
Nas palavras com mofo e
na pontuação à espera.
No termo que se quer tão erudito
que cedo se tornou bera
Nos poemas famosos musicados
nos incógnitos tão melódicos e deixados.
Tenho-me detido no poder,
na natureza dos discursos,
e subitamente devo ter percebido
porque és sabiamente tão calado.
E nós confusos.



16.10.07

Mood: Elvis Perkins, All the night without love


E um dia veio um menino
de olhos de água
afluentes na palma da mão

perguntar o que era saudade
se sabia ao redondo da chuva
nunca apanhado até então

Saí para lhe roubar
palavras dignas de ingenuidade
procurei pela cidade coisa que explicasse

que saudade, é coisa que se sente
e quem jurar que a pode explicar
juraria eu que mente

E o menino soltando outro refrão
perguntava se a saudade
sabia ao redondo da chuva
nunca bebido até então

E uma gota em lábios frios
fluía como os rios

afluentes na sua mão
deslizando como a falta

como o perder de uma luva.
Talvez com uma certa razão
seja a saudade

uma gota de chuva

Talvez com uma certa razão
se apalavra de saudade
a corrente entre a vontade
e a tal da palavra 'não'

Já beber ou agarrá-la
é coisa de cada um
é fome de coração.

Percebi a presunção quando
à chuva desci em pressa a cidade
e bebi ao relento, sorvi inteira a saudade
E cada gota necessária, liberta

eras tu.