21.10.05

Mood: Joanna Newsom, Erin



Foto: John Drysdale

Guardei-te tantas vezes...em choros engasgados no colo, aquelas em que ralhei, em que te afastaste. Guardei-te tantas vezes...quando te deitei, olhos já cerrados, ainda na fantasia de um conto; no fascínio da primeira letra, na teimosia de sabotar os t.p.c, na insistência de sopas más, de escuros que não fazem mal aos pequeninos. "Quando estás cá não há fantasmas". Juntas, corremos com eles à chinelada. Guardei-te sempre...à saída da aula de dança, à saída do banho com a toalha quente, nas muitas brincadeiras de leões maus, mães protectoras, bolos e chá, marionetas, cócegas e gargalhadas, nas músicas que só tu sabes até ao fim. Guardei sempre na minha mão grande de crescida a tua, pequenina, lambuzada com chocolate. Dói despedir num abraço, aquele que vem depois de um desenho
feito para nós. Será que me guardas como eu a ti?...na parede, no peito? "Dás-me um abraço docinho e apertado... para me lembrar quando tiver muitas saudades?" Peguei nela ao colo, naqueles cinco anos de menina, e ao trazê-la a mim um aperto forte cercou-me o pescoço, uma mãozinha pequenina tacteou uma festinha desajeitada nas minhas costas, e desceu longamente numa madeixa do meu cabelo. Senti-me respirar de novo, mais leve. Cruzámos...ali, nos abraços apertados todas as pequenas guerras e conquistas, demos todos os beijinhos doces,
e as palavras meigas na intimidade serena das bochechas. Daquele abraço lento nasceu-me no colo um embalar demorado e selámos tudo o que nos aproximou. Não há despedida mais dorida do que de uma criança que se gosta demais. Por vezes a maternidade está só no coração. O que fica sempre...são sorrisos, um colo à espera do reencontro...
Que todos os leões que a esperam sejam mansos.

Para os "meus" meninos, o M. e a M.

14.10.05

Foto: Afonso Duarte


"Pensa rápido...que fazes amanhã à noite?"

Há noites que começam assim...de improviso. E tal como um devaneio musical de uma jam session se revelam uma surpresa com o seu quê de fascínio- nas notas surpreendentes e no peito descompassado pelo compasso em crescente. Quando dei por mim já lá estávamos. Fomos.
Uma banda brasileira pela primeira vez em Portugal apresentava-se sob o nome "Supernova" no Hot clube da Praça da Alegria. E tal como a música deve ser, naquele espaço intimista (no tamanho e no som) brilhava para além do jazz contagiante o suor do saxofonista debaixo das luzes quentes dos holofotes. Brilhava para além daquele brincar perfeito de instrumentos o evidente estado de espírito de quem está simplesmente...a curtir a música.
Comentava-se a certo ponto o delírio que é aquela energia que se cria entre músicos e público. E o próprio conceito de público parece-me agora sempre tão pobre. 'Público' não sugere alguma passividade? É-se tudo menos isso, quando a melodia participa de nós e arrebata as emoções, os arrepios, os sorrisos, o fechar de olhos para circunscrever mais um pouco a música cá dentro. É-se tudo menos passivo. Tudo menos isso.
Há noites que começam assim...de improviso, e que acabam com regressos a casa demorados. Simplesmente porque nem apetece ir. Tudo o que sabe bem, custa a deixar. Mesmo quando se abrem as luzes, somos os últimos e já só resta recolher os copos que ficaram, o sono e os sorrisos.