29.3.07

Mood: Chico Buarque, subúrbio

Tua língua na minha escorreu
aguarela e humidade
E plo meu corpo onde o sol bateu
Ficou tua boca a colorir
[A alva luz da cidade]

Barriga vazia, peito alegre
E de pequeno-almoço
O manjar do encosto.
Mas. Havia coisas tão
importantes

na luz abrindo aflita
em teus vidrados brilhantes.
O frio arrepiou-se inteiro
De agasalho quente que
não se via.
E a luz que te insistia
Era filme que só visto.

Ele vale a pena
Ele é a minha cena bonita.
Ele sabe que me acho esquisita
Ainda assim me acha bonita
também.


A língua por mim escorreu
aguarela e humidade
E plo meu corpo onde o sol batia
Ficou sua boca a colorir na pele
poros que nem sabia que trazia
[Sabendo que vinha ter com ele]

Mas é moldura boa
tua sétima arte
bocado bom demais
Dessa tal de humanidade.

Se esses humanos soubessem
de que é feito um beijo teu
percebiam este crescer maior
de quem já te pertenceu.

Ele vale a pena
Ele é um homem bonito
Com mania que é esquisito
Mas ele é por inteiro, o travo
que ninguém tem
[Ele sabe estranhamente bem]

O dia pairava laranja
No desatino daquela franja
E seu olhar amarrotado,
mais uma vez
Atrapalhou o chão à minha cidade
E o músculo de sentir as coisas
Como dizem que Deus as fez.

Digo-te sinceramente rapaz
É maldade que não se faz.
Alguém já te avisou
Que dormisses melhor, por favor?
[Digamos, foi mais ou menos assim
o filme com o artista pintor]

Esta luz de Lisboa.

27.3.07

Mood: Mário Laginha e Bernardo Sassetti, A menina e o piano

Dias assim de tempo incerto
devolvem-me o andar
de caminhar cá por dentro

E de olhar para a confusão
reconheço-me perto
mais do que nos dias
em que tudo parece andar tão bem

Piso o chão que criei
e ali reconheço
o esforço no que mereço
as dores do que não tentei

Às vezes custa respirar
o estraçalhar da liberdade
antes da bandeira ao vento
Mas o caminho é já ali

E quando o vejo assim
penso em jeito competente
de expressar a torto e a direito
este jeito de estar contente
A alegria leviana

Esta vida
É descobrir-lhe o encanto
lançar-lhe depressa a mão
Alguém lhe ouça o desgosto
por nem lhe sentirem o gosto
no queixume de balcão

Pouco sei de viver
que não seja melodia
trauteada na palma da mão
E cada um canta como pode
e quer

Quero calcular bom caminho
para encontrar mais de quem
pouco mais tem
que bochechas quentes
unhas sujas em mãos boas

Não preciso de abrigo
Preciso sorver pessoas
de sorriso inteiro
Venha mais dessa boa gente
Carregar o mundo em bom passeio

E nesta existência
vai doendo a evidência
que o tempo é curto demais
para beber todos os tais
que valem a pena

Não chega ainda
de pisar o chão descalça
sentir a gravilha e o lodo
Preciso ser mais bonita
Ocupar mais do meu todo

Ninguém rebenta
na tarefa de se tentar
E se alma se acrescentar
vou-te saber apreciar
da minha melhor parte.

Vou assumir
como uma espécie de arte
este rasgar dos dias melhor
De tudo o que posso ser
sou ainda e sempre o meu pior