29.12.04

Tempo

São três da manhã...
quão cheio de vazio pode estar um fragmento do tempo?
ou quão repleto de experiências?
Sendo que o tempo é essencialmente
uma característica interna da psique humana
Afinal o que é que determina se passou muito ou pouco
desde a última vez que estivémos rodeados de amigos
desde a última vez que amámos alguém sofregamente.
o que é determina se já nos parece distante ou não
o momento em que nos despedimos de alguém,
a hora em que nos morreu uma pessoa querida.
Qual é que é o critério para se sentir falta ou saudade?
que tempo será esse?
...que não ressoa em badaladas, que não tem um timing ritmado
que não tem cuco logo, não avisa que passou mais uma hora ou duas.
Como é que se mede o tempo do ser humano?
...aquele tempo que nenhum calendário acompanha ou desacelera
que não consta em nenhum organizer,
aquele em que é infrutífero pôr marcadores.
O cronobiólogo estuda isso.
E de facto parece fazer sentido...
o tempo é um ritmo interno...
posto isto, todas as avaliações que fazemos do mundo
com base na noção de tempo
partem de nós...do nosso tempo..da nossa ritmicidade
Posso dizer que já me parece bem longe a última vez que saboreei
um bom pastel de nata;
pode até ter sido ontem...mas já sinto falta dele outra vez.
e enfim, ...acho que o tempo se mede assim!
(nunca gostei de usar relógio. aperta-me!)

28.12.04

Vale a pena fazer uma incursão..no site, na casa e no restaurante.

http://www.casafernandopessoa.com


Fogo

Há qualquer coisa que arde
que me queima por dentro...
e já faz algum tempo
que nada me consome assim

saber como estás, em que pensas
como te mexes...
como é que dia te acorda
como é que a noite te deita
e se te adormece como a mim

se alguém te embala...
como é?... sabe bem?
E eu?..Não pensas em mim?
Nunca...à vezes...
todo o tempo...ou assim-assim...?

Há qualquer coisa que me arde,
que me incendeia por dentro...
e já faz algum tempo
que nada queima assim

como é o teu dia?...
se franzes a testa daquele modo
que me derrete às tantas
quão brilhante é o teu olhar?
quantas vezes és bom sem eu ver, quantas?

Há qualquer coisa que me arde...
em combustão espontânea...
e não tenho memória de ser febril assim

Quantas vezes outros usufruíram
dessa boca em riso
em todos os momentos que não pude estar
quantos foram alvo privilegiado desse olhar?

Há muito coisa que me queima
que me incendeia, que me faz vibrar
e resolvo arriscar: Acho que nunca ardi assim!

25.12.04

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
é pouco, mas é a verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas

Adeus.


Poesia e Prosa, Eugénio de Andrade (1990)


Não querendo ter a pretensão de comentar um poema de Eugénio de Andrade, não posso evitar sentir-me arrebatada por este. Nunca li nada sobre o fim de um amor que fosse tão rico. Julgo que qualquer pessoa que tenha vivido situação idêntica se revê nele...o que é lindo porque à parte da genialidade deste autor isso leva-nos para a discussão de que a arte nos remete para a essência humana, o inconsciente colectivo- aquilo que qualquer homem sente, ou pode sentir. E essa é uma das maravilhas da literatura: pessoas brilhantes na arte da comunicação conseguirem verbalizar aquilo que outros não podem ou não conseguem... A eles a minha sentida gratidão por darem sentido e alguma organização a emoções às vezes tão complexas!!!
Hoje deitei-me ao lado da minha solidão.
O seu corpo perfeito, linha a linha,
derramava-se no meu, e eu sentia
nele o pulsar do próprio coração

Moreno, era a forma das pedras e das luas
Dentro de mim alguma coisa ardia:
a brancura das palavras maduras
ou o medo de perder quem me perdia

Hoje deitei-me ao lado da minha solidão
e longamente bebi os horizontes.
E longamente fiquei até sentir
o meu sangue jorrar nas próprias fontes


Poesia e Prosa, Eugénio de Andrade (1990)

22.12.04

Tu

Existe qualquer coisa em ti...
esse 'quê' sem nome
deve ser esse cheiro tão teu, ou
talvez quando encostas esse olhar ao meu
esse corpo tão imenso
o teu riso rasgado tão intenso
que me devolve contra mim...
contra o meu peito submerso
na doce possibilidade de perder o norte assim
de mergulhar nessa húmida doçura
sem medo de te provar intensamente
uma, e mais outra vez entrar suavemente
na tua pele...nessa intensa corrente

Existe, sim, qualquer coisa em ti...
Que afina esta melodia inédita
do desejo de te conter no meu peito
de mergulhar o meu beijo no teu
de te amar a preceito
de sentir-te dentro de tudo o que é meu
de me preencheres em uníssono perfeito
e no fim suarmos na pele salgada
o prazer cansado, a textura arrepiada
a boca ainda ofegante do que a tua me deu

Existe mesmo qualquer coisa em ti...
que me faz vibrar o ventre em novos acordes
que me remete para um arrepio de amor
e desejar-te uma e mais outra vez, cobrir-me do teu calor
sentir-me tão dentro de ti....sem qualquer vergonha ou pudor
Ser o privilégio de despertar os teus olhos
De madrugar a tua manhã
num abraço profundo
Não me importar de ser o teu mundo

Existe qualquer coisa em ti...
Que me faz precisar dessa força só tua de ser pessoa
que me faz estremecer por ser melhor
que me faz querer ser boa

Existe mesmo muito em ti...
que me trouxe de volta,
de volta para o melhor de mim

Vida

Ontem resolvi não morrer!
Recuso-me a deixar a carcaça
é de pão retardado
mas é minha e não a abandono
Acabou...assunto encerrado!
Ontem decidi que serei imortal
Venha quem vier
Seja o tal do Gabriel ou o da enxada
só me leva arrastada
E a mim não arrastam contrariada
Viverei um milhão de anos
E ainda assim, não cansada
Viverei outros mil
E se a vida se revelar difícil de suportar
bebo um copinho
para a animar
Quem de vocês consegue partir
sem saber o desfecho da peça?
Eu cá vou ficando
Umas vezes em pé...outras tropeçando
Pois se só agora a vida começa
Seria eu a pregar-lhe tal peça?
Não, eu não.
Eu fico para assistir ao fim dos dias
Assistir às tréguas dos homens
ouvir hinos à vida
que se descobriu a cura da sida
Eu fico mesmo que escondida
Porque todos os dias a vida me provoca
Vem de rompante...nem bate à porta
Ansiosa por ser vivida

Alcolémia

Permiti a mim mesma
enlouquecer neste segundo
Caminhar neste mundo,
voar, cair, gritar,
e ai de quem me quiser curar
Saborear o mel que permitirem provar,
A sede que deixarem saciar
Sentir a gravilha quente nos pés
Palmilhar de lés-a-lés
Chorar a alegria, a fome, a dor
Abraçar cada um com calor
Varrer qualquer lembrança de sobriedade
deixar-me invadir de embriaguez
que mate esta carestia de uma vez
...para logo de seguida
ficar esfomeada outra vez
sedenta de soltura,
abstinente de rodopio
ressacada de loucura
de tamanho fastio
Pois tal embriaguez
de beber a vida em copo de três
é o que de mais lúcido a vida tem
Estás sóbrio, amigo?
Anda...vem beber também.

Despedida


Dá-me só um último abraço
Mas que este parta de ti!
E que o sinta não menos intenso que uma derrocada
Para que possas morrer cá dentro de vez
Que seja um carinho
que mate toda a saudade que terei até ao fim

Que possa chorar lágrimas gordas no teu casaco
E sentir de lábios gordos o calor do teu pescoço
Que afastes o cabelo devagar
E me sossegues em voz serena
Que me dês um beijo na testa
E jures que não me esqueces
Dá-me esse último abraço
Como nunca a mais ninguém
E guarda-o dentro de ti
prometo... morro para ti também.

Clivagem

Porque não sei de ti...

Já te perdi lá muito atrás

Nesse dia perdi-me também de mim

E eu e eu própria..não nos encontrámos mais!

Catorze anos

Quem és tu?
Ainda recordas o teu nome?
Ou já o perdeste no meio das ruas
das lutas com outras iguais a ti
no meio da fome ou da ressaca?

Quem és tu?
vendes-te nesse lugar
tu, de seios roliços e coxas rijas
nos teus catorze anos
O que é que correu mal?
Em que rua te perdeste?
que percurso fizeste?

Quem és tu?
nessa luta por mais um dia
por uma vida escrava
que te mata mais um pouco em cada esquina
que te chicoteia o sentir
com força de xibata
Que cada homem que entra em ti
morre e te mata
Quantos dias...quantas horas por viver!
Os mesmos por vender
...num final de rua
...num vão de escada
...num carro sombrio
...numa paragem gelada

Quem és tu afinal?
Teus olhos e seios
perderão o vigor dos catorze anos
tão iguais e tão diferentes destes meus
Que eu podia ter sido tu
E tu podias ser eu

Filhos da Terra

Castigam-se os céus, o mar, a vida
em nome dos Filhos da Terra
...frutos de um beijo
...de um sopro de angústia

Criança que chora
sem que lhe calem a fome
enquanto Ela rodopia em mil e um feitiços
enquanto ela tortura o espírito magoado
enquanto ela faz amor com o diabo
Perversa mediocridade
vigilante como ave de rapina
Dor que escorre assim
que mancha a alma
Angústia enclausurante
Que, como lâmina aguda,
golpeia a liberdade do espírito
como se carne humana fosse.
Máquina agonizante
Sistema viciado...corrupto;
vivência selvagem que ao puro
incivilizado chama
Sociedade dilacerada
Sociedade magoada
...que mata o Homem
...que mata a Vida
...que não perdoa nada