19.9.07

Textos de gaveta

A carne dos beijos. Esquecer-lhes o gosto.

... No momento do nosso acto carnívoro teus olhos entornavam, de fogo feito. Tua boca se parava e me dizias do bem que sabe saciar-te o universo. Se era mentira, acreditei. Ao ver, pesar-te nos olhos claros a força de um céu inteiro dormente a derrocar. Demoravas-te a levantar. A retornar à minha altura e a tua, juntas. O amor se mede pela demora de voltar ao sítio anterior. Acho mesmo que é exactamente assim:

O amor se mede pela demora de voltar ao sítio anterior.

Àquele, logo antes de termos ameninado de novo. Minutos antes. E ao ver-te tão lento desconfiei. Que éramos corpos celestes incandescentes cravados em qualquer horizonte que prendêssemos aos olhos. Sem talento para dançar em chão menor. De súbito, éramos miúdos, desconfiados das mútuas demoras em regressar a sítios anteriores a nós. E entrançavas teus dedos nos meus cabelos, prendendo-te, como um Lilliputiano a resistir. Éramos bichos de estimação libertando a corrida e as trelas. Esquecerias que fomos um caminho de terra? Tua fome sempre me iluminava a necessidade, por isso seguias à frente. Ninguém se desbravava a dois como tu: descobri-me um animal que se contorce, quando és, nas imediações daquilo que parece ser eu. Parece ser. Na verdade, foram os teus contornos nos meus, quem primeiro desenhou meu lugar no mundo. Bem vistas as coisas, somos uma pintura. E desconfio. Que sou tua miúda.

Textos de gaveta

[Sabes bem amigo...]

...Já não consigo
alcançar-te além de ti
Sabes, sempre consegui.
Sabes, sempre te quis tentar.
O vazio já não tem lugar
em nenhum patamar de mim.

Pus o pé na tua estrada
E onde a marca não vincada
era tudo por pisar, era eu

corrida brava a acontecer
um bicho a anoitecer

E cedo me vi regressar
velando a madrugada
que mais que ser estrada
mais que uma via errada
foi fim certeiro, nosso lugar.

Feito trajecto meio torto
despistei doce em ti.
Tanto adoçei, consegui, arruinei
o amargo do tango na perfeição.

Sempre na ilusão
estendida rasgada a mão
na via a direito
que alcançasse em cheio o peito
no melhor dessa engrenagem
que era o teu vil coração

Sabes bem amigo
já não consigo
alcançar-te além de ti
Sabes, sempre consegui.
Sabes, sempre te quis tentar.
O vazio já não tem vagar
em nenhum dinamismo em mim.

E de ser tão criança

e tola, era eu.
A ser apenas o que é teu,
em mim.
Corrida brava a acontecer.

Sabes bem meu amigo meu amor
Alumia meu amor meu olhar
Sou eterno bicho a anoitecer
Quando és só tu quem não me vê
Daí desse teu lugar.



Textos de gaveta.

Essa espécie de amor, em três actos

Act 1.

Julgo que o que fez abater a gravidade interna sobre os frágeis joelhos foi vê-lo. E ali descobrir algo de maior. Algures entre os seus olhos e a leveza sem culpa com que os desviava de mim, havia a matéria desejável de um arquétipo, de bem ou de belo seguramente, mas com a acessibilidade dos grãos de areia. O divino e o mundano negociavam-se quando ria, e o céu caía-me sempre em cima no mesmo instante. A voracidade passional eleva-se e faz-se delicada. Embrulha-se delicada, sem dar conta. Assim se tece no coração a consciência de que ele nasceu, pela primeira vez.


Act 2.

Não fechar os dedos em busca da contenção absoluta. Querer é muito isto: da pele e das fugas alheias. E reconhecer nelas a mesma liberdade que peço para mim ao mergulhar na minha surdez. Talvez por isso só nos encontremos verdadeiramente ao subir da maré, quando cedo eu quando cedes tu. Recolho vezes sem conta, quase te convencendo que para trás deixo apenas a humidade, e que todos os outros dias não doem imensamente como o frio. Fujo-te o mais que posso. Levo-te tanto quanto consigo.


Act 3.


Talvez um dia seja capaz de te deixar sem mais, com o mesmo desprendimento com que se larga um copo qualquer com alguma água já bebida, à beira de um balcão, igual a todos os outros. Para já, persistes enquanto elemento. E água é água. Fazer o quê?...