22.6.05

Mood: Damien Rice, Cold Water



...E no entanto, olha para nós agora
onde cada minuto era demasiado
passa o tempo ileso ao nosso lado
Onde guardaste tu aquele amor?
fala-me dele. Esteja onde for.

E apague a pressão dos dedos teus
ainda entrelaçados nos meus,
que não deixam que te largue

Onde antes se deitaram palavras
há músicas, cheias e vazias de ti
Prefiro silêncios
a ouvir nelas que não estás aqui,

Onde antes eram desejos elevados um no outro
debaixo das bocas em voraz encontro
Agora...o nada das esperas....
estas mãos vazias de te apertar nelas


Antes era um cheiro nosso
no escuro meio adormecido
E na penumbra de teu tronco nú
nos resíduos da pele suada
precisar de mais nada


Antes era o grito
de rasgares carne e afecto em mim
Ainda ouvirás na tua, minha pele
chamar por ti assim?




17.6.05

O que despes quando te desnudas?
Pele...roupa...alma?
Ter-te nua já não chega
Caçar olhares e sexo
não tem mérito...não hoje.
Porque há demasiada pele
aquém desta sede que te tenho
por ti... por alguém...
e que me seca o sangue.

Deita-te comigo hoje
Deixa que te guarde, abraço dentro
Hoje quero provar além da carne
Não me ames com fome
Recolhe os dentes afiados
Apaga por agora o fogo
Pestaneja-o com humidade séria
E não te craves em mim...dedos, unhas
Não me mordas sequer

Deita-te comigo hoje
Olha-me...E abre-te apenas...
mas para além das coxas.
Desmonta-te para mim. Porque preciso...
do princípio e do fim.
Se prolongarmos o sorriso para lá dos braços
Logo pensamos nesta fome imensa.



- Em que pensas?.... Não foi explosivo?
- Sim...foi óptimo. Como sempre...

15.6.05

...Porque as palavras não morrem

Serenata

Venho ao teu encontro a procurar
bondade, um céu de camponeses
altas árvores onde o sol e a chuva
adormecem na mesma folha.

Não posso amar-te mais,
luz madura, espaço aberto.
Não posso dar-te mais do que te dou:
sangue, insónias, telegramas, dedos.

Aqui estou, fronte pura, rodeado
de sombra, de soluços, de perguntas.
Aceita esta ternura surda,
este jasmim aprisionado.

Nos meu lábios, melhor: no fogo,
talvez no pão, talvez na água,
para lá dos suplícios e do medo,
tu continuas: matinalmente.

Eugénio de Andrade

13.6.05

Surf Trip

...E lá fomos nós. Eles puseram as pranchas em cima do jipe e seguimos rumo à costa alentejana onde já parte do grupo tinha chegado. A adrenalina de chegar, ver nos olhos dos amigos a ansiedade de encontrar a praia, de perceber se as ondas os iam receber bem...
Alugámos umas casas mesmo sob a praia, onde a liberdade de deixar a porta aberta foi apenas um dos muitos pormenores que permitiu cortar com as preocupações de quem vive numa cidade como Lisboa. Isso e o farrusco, um cão ‘marca-serra da estrela’ enorme com um feitio tão pachola quanto os próprios donos, gente boa enfim...
Foram dias memoráveis para esta menina. Ainda venho na ressaca daquela embriaguez agradável de viver 4 dias com os amigos partilhando tudo....tudo. Os pequenos almoços, as pequenas decisões; o irmos para a praia e o carro da frente fazer sinais para sintonizarmos a antena 3 porque estava a dar "Gimme Hope Jo’Anna", e fazermos aquele percurso tão verde e ventoso na sintonia da música, naquela boa onda, nas gargalhadas, na pura curtição.
Não faço surf. Só experimentei. No entanto aquilo que pude experimentar sim, e mais uma vez, é o espírito que está por trás de quem o faz. É olhar para o mar e ver ali os meus amigos. Ver que dentro de água, tal como na vida, se torce uns pelos outros...para que apanhem aquela onda que os vai levar mais adiante, sobretudo dentro de si próprios. Ver que aquilo que eles são se reflecte dentro de água, tal e qual. Constatar a aflição e preocupação quando a onda correu mal a alguém...quando alguém cai abruptamente e o mar se revelou mais difícil do que a expectativa. Vê-los sentados sob a pranchas marcando na linha do horizonte a continuidade entre o azul de um céu e o efeito de espelho que o sol imprime na água. Vê-los ali sentados...à espera que o mar se agite. E há uma serenidade quase espiritual nesta cadência...que não consigo explicar, mas que sinto de cada vez que estou à beira –mar, de pés molhados e enraizados na areia, à espera...com eles.
Tenho o alentejo gravado na memória como uma fotografia ou um filme. As encostas de terra alaranjada a constrastar com o verde vivo, as planícies douradas pelo sol ao final da tarde. A liberdade de me sentar descalça, pôr as mãos fora da janela do jipe e sentir o vento quente provocar-me as mãos, abrir-me os dedos e escapar-se no meio deles. Focar a paisagem e ver o cenário levemente agitado pelo movimento demorado do voo das cegonhas.
A música...acordar ao som de Ben Harper e Jack Jonhson; terminar o dia de praia fora dos carros a dançar feitos doidos, sacudindo a areia e o cansaço ao som de Propellerheads; voltar ao pé do mar à noite e cantar (muito mal) tudo o que é música que se saiba a letra; ...viajar com um som qualquer. E no último dia depois de um jantar memorável ir a pé até um bar que tem umas camas de rede deliciosas e umas caipirinhas excelentes, sentir o grupo ainda mais unido que nunca (o surf e o álcool tem destas coisas) e passado umas horas perceber que há um amigo nosso que adormeceu deitado no meio da estrada. Eu sei que ele não vai ler isto...mas....M. se algum dia passares por aqui, desculpa qualquer coisinha...não foi por mal, a sério. Sabes que gosto muito de ti amigo.
À vinda, rir ao relembrar os episódios cómicos, os momentos kodak...e o desejo de voltar.
Ainda agora cheguei e já tenho saudades...

6.6.05

Mood: Maria João & Mário Laginha, asa branca

Ás vezes acho que te conheço como ninguém.
Sei desse aperto que te aperta às vezes, te contrai o olhar.
que derrete, e me derrota logo ali também.
Percebo nas tuas mãos diferentes quando és mais triste

...mais desanimado. Quando partes tão-só desancorado

Reconheço tua indignação ao baixares a cabeça tensa,
para logo de seguida franzires a testa daquele jeito
e cerrares um pouco os olhos, assim como quem pensa.
Enquanto carregas mil convicções que a tua boca teima cerrar.
Silencias-me assim. E eu resolvo não teimar.

Contigo o silêncio não tem por que se envergonhar.

E acho que nunca poderia viver sem ti.
sem os teus sorrisos desajeitados tão genuínos.
Sem essas luas, sem essas mãos indignadas, só tuas.
Sem saber que existes tão perto dos meus dias.

Mesmo sem te guardar.
Mesmo sem sequer te cativar

nas mãos frias.
Tenho-te sempre de
saudade imediata.
Ainda que de abraço e pele intacta.

Há um mundo de conforto entre tu e eu.
Mas não te chamo de 'meu'.
Contigo, porém, apropriei-me de tudo

o que é passível de ser gostado com paixão.
Ao teu lado, calada, pela tua mão.

ninguém precisa pôr as mãos nos bolsos...