30.11.07

Donna Maria é tão-só 'Música para ser humano'. Sem pretensões.








Os Donna Maria. Suponho que 'os' Madredeus também não tenham cativado as primeiras simpatias pelo nome. E a realidade é que o impacto inicial poderá ter sido estranho para alguns. Mas já Fernando Pessoa e Carl Jung falavam, cada um no seu galho, da importância da fase da estranheza na apropriação da arte. Pois seja. O nome foi bem pensado sim senhor. Hoje não me sobram dúvidas.

O conceito fervilhou a partir de um bar templário lisboeta, onde as segundas feiras começaram a ser a casa dos XL Femme, uma banda de versões que viajava sobretudo pela música portuguesa seguindo as tonalidades de um som electrónico, sem ofender a dignidade das bases. A descoberta do conforto na língua-mãe levou o grupo em 2004 a partilhar um primeiro álbum de originais sob o nome Donna Maria, protagonizado pela voz de Marisa Pinto e pelas composições de Miguel A. Majer e Ricardo Santos, contando ainda com a presença de artistas convidados e interpretações de dois grandes temas de Amália e Variações. Uma delicadeza e deferência da banda para com o nosso legado musical que resultou num enlace no mínimo elegante. Até o Paulo de Carvalho de repente parecia cool. Quiseram deixar no ouvido vivências que são de sempre para sempre, num registo de quase (im)perfeição, registo esse que será talvez a melodia mais competente que cabe ao ser humano criar. A tal da falha necessária... como aquele som único de batata frita do vinyl. Leitura minha. Factualmente a letra só fala de um beijo que queria mesmo era tornar-se num crime perfeito. Delícia de ideia. Contudo, desse disco recordo Dois Lados do mesmo adeus como O tema mais relevante. Diria até que é das coisas mais bonitas que se têm feito por cá.

As mudanças fizeram-se sentir desde então, e tudo avança. Dia 3 de Dezembro os Donna Maria editam o seu segundo álbum: "Música para ser humano". Os temas poderão ser ouvidos aqui. Desconfia-se que é bom. Que seja o segundo de um trio que se quer sempre melhor.

20.11.07

Mood: Jesca Hoop, Enemy

[Mais um a crepitar da gaveta...]


Alguém dizia outro dia
da encruzilhada de existir
O dever de a agarrar peito adentro
Deixá-la serena fluir a seu tempo.

Mas os dias de guerra persistem.
Insistem que não me porto bem.
Há dias onde estou sempre aquém.
Não sei lidar com o aconchego

Não sei cantar o desassossego.
Não me negues tu também.
Deixemos o cerne da queixa
O agridoce que a boca fecha
já me sossega mal ou bem.

[Não falemos entre os dois.]
Gosta só de mim assim.
Tudo abrirá depois.

Alguém dizia outro dia
que devo portar-me bem.
Mas isso não seria correcto.
[Mas isso não seria correcto.]
Nem o que humanamente
me convém.

Sou o meu maior inimigo e
o maior curativo que me sustém.
Ao agarrar o aqui-e-agora
peito adentro, e o tal do tempo
que é meu sim mas foge num triz.

Dizem que é por medo que
devo portar-me bem.
[E que o prémio é ser feliz]
Mas isso não seria correcto.

[Mas isso não seria correcto.]
Nem faz de mim alguém.
Estar adequadamente mal
é construir-me marginal, de mim.

Ser gente é ser um objecto diferente.
[Ser gente é ser um objecto diferente.]



12.11.07

Mood: Arcade Fire, In the backseat

É o destino das viagens longas, o de me esquecer o que existia antes delas. Sempre foi assim desde pequena, quando não havia vontades nem quereres. Os restos de comida amachucavam-se à minha volta e com o tempo deixaria de me lembrar que houve sequer uma partida. A vida no meu pequeno espaço pareceria interminável, durando desde sempre e para sempre, com a companhia entretanto familiar de garrafas com água já morna. De lá para cá o tempo permitiu-me conquistar uma posição mais elevada no banco de modo que pelo menos agora não enjoo, mas continuo a ver o filme a passar lá fora intacto e liberto, alheio ao fechamento em que me vejo, de conversas de volume educado. Sinto sempre o mesmo: não me lembro como era este filme antes de aqui estar agora. Que fiz antes disto? Teria de fazer um esforço para rebobinar os passos, pois rapidamente retorno ao inerte que nunca mais passa e salto para o depois que demora a chegar. A mente agora adulta foge-me sem trela. Em pequena limitava a sentir-me aborrecida de morte, e a vomitar de vez em quando.
Encaixarmo-nos no próprio corpo enquanto ele está em compasso de espera é um exercício de não-fuga; e não haja dúvida, fazemo-lo melhor em pequenos, quando ainda somos especialistas do brincar.
"Não pensar no passado, nem no futuro, o que interessa é o que está aqui" - Dizia A. "Sim." - respondi-lhe - "é importante saber parar, enquadrar e sentirmo-nos." Seria mais importante ainda consegui-lo de facto- pensei para mim. Pois ao sentir-me encaixotada em viagem só me ocorria a canção que ensina sobre estar onde não queremos estar, e do livro que lá longe, à minha cabeceira, fala das insustentabilidades voláteis de se ser humano. Nunca mais chego, para saber como acaba.

Era nisto que Tereza estava a Pensar. Depois, apertando a cara contra a cabeça felpuda de Karenine, murmurou: «Não te zangues, Karenine, mas acho que temos de mudar de casa outra vez.»

Kundera, M. (1983). A Insustentável leveza do ser. Lisboa: D. Quixote