28.10.06


Não te cheguei a dizer...
mas quando sorris, és inteiro. De olhar soberbo e molhado.
E esse é só o menor dos teus crimes.
Desde então desarrumei a vida, à entrada da tua boca.
E é ali que tudo começa. Tudo, e o meu desassossego.
Esta história nunca eu te contei, mas começava assim...
Era uma vez, aquele momento exacto: o culminar da tua insinuação
e todos os meus princípios.

Toda a demora que antecede um beijo teu é para mim
a mais complexa das narrativas. E o desfecho mais brutal.




cinema paradiso

1.10.06

Mood: Gotan Project, vuelvo al sur


Pronunciava-lhe coisas incompreensíveis. Como ter saudades.
Talvez um dia, entranhada noutra pele ela descobrisse o que significava alguém lhe sentir a falta. Mas nunca antes disso. Condoída no ruído que a palavra saudade traz ensurdeceu ali mesmo, e ele continuava. Entretida na proximidade das suas sardas e dos olhos azuis, cercava-lhe agora o canto da boca com requintes meigos de estratega. Com gulas pueris de algodão doce em eficiência de mulher madura. E a língua estudava-lhe, entre os contornos, um lugar... com cuidado; os lábios gordos apertando um fôlego muito próximo da perfeição. Era então um silêncio hermético e ela mordendo-lhe beijos impronunciáveis. Que ele gostava. Via-se nos olhos claros que abriam pesados. Como a demora dos lábios, sempre os últimos a largá-la. Sempre os últimos a abdicar de um segundo a mais, ou de um desejo a menos. Encontros que nunca sossegariam as saudades por vir, ou a sua gula pelas palavras que ela nunca ousou. E, no entanto, há beijos que vingam, maiores que a memória, de tão puros. De tão calados que são.
Ainda há complots de pele, espiritualmente inocentes. De cada vez que ele lhe sorria, desvanecia-se qualquer pecado. Sem uma palavra.
Talvez ali, por um instante, residisse a verdadeira absolvição.






Fonte: www.olhares.com