Mood: Gotan Project, vuelvo al sur


Pronunciava-lhe coisas incompreensíveis. Como ter saudades.
Talvez um dia, entranhada noutra pele ela descobrisse o que significava alguém lhe sentir a falta. Mas nunca antes disso. Condoída no ruído que a palavra saudade traz ensurdeceu-se, e ele continuava. Entretida na proximidade das suas sardas e dos olhos azuis, cercava-lhe agora o canto da boca com requintes meigos de estratega. A gula imberbe de algodão doce e a eficiência de mulher madura. E a língua estudava-lhe, entre os contornos, um lugar; os lábios gordos encarnando fôlego próximo da perfeição. Era então um silêncio hermético e ela e beijos impronunciáveis. Ele gostava. Via-se nos olhos claros que abriam pesados. Na demora dos lábios, sempre os últimos a largá-la. Sempre os últimos a abdicar. Encontros que nunca sossegam saudades futuras, ou a sua gula por palavras que ela nunca ousou. Mas. Há beijos que vingam no silencio, maiores que a memória.
Ainda há complots espiritualmente inocentes. De cada vez que ele lhe sorria, desvanecia-se qualquer pecado. Sem uma palavra. 
Talvez ali, por um instante, residisse a verdadeira absolvição.





Comentários

whitesatin disse…
Forgiven, but not forgotten.
Sandro disse…
É tão bom... volta de vez!
Azulinha disse…
Um texto estrondoso... em mim.
amazing disse…
Feliz regresso.

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