7.12.07

Mood:

Não conseguia dormir. Via-se agora envolto em mais uma penumbra dividida em duas. O adormecimento depois do amor representava para ele como que a separação original dos continentes. Igualmente disruptivo e irreversível. Igualmente caótico e necessário. Do outro lado das suas mãos havia agora um corpo denso, estruturalmente diferente do anterior, azulado na textura, e que tal como o anterior não ficaria para além do azul. Talvez por isso nunca conseguisse dormir, sabia que a carne sempre se separava um dia, e que adormecer seria a primeira das traições. Optava assim por não ceder ao cansaço. Resguardava-se num qualquer recanto daquele tempo parado, velando sigilosamente o que por ora era único. Não desejava apressar o momento em que deixaria de ser responsável pelo corpo que, sem dar conta, ela lhe tinha confiado adormecido. Observava a quietude do ambiente por detrás do fumo lento que subia do cigarro e puxava demoradamente o filtro. A brasa se consumindo crepitava por cima do silêncio um queimar agradável, que atrasava o tempo com uma cadência prazerosa, quase orgástica. Confrontado contra o próprio chão, sabia com certeza fotográfica que havia nada semelhante a ela. Nenhum corpo respirava assim. Nenhum lençol se enleava tão redondo numa cintura. Nenhuma outra curva era elegante como a dos seus lábios, de beleza comprometida pelo sono. Todas as pequenas fealdades expressivas que aparecem ora pela inocência ora pelo cansaço lhe sabiam sempre a um banquete secreto; aí sim se iniciava o seu prazer. Ao observar sabia muitas coisas, como por exemplo que antes dela nada tinha existido, nem voltaria a existir. Era sempre assim. E amou-as a todas. Uma de cada vez, fielmente. Por isso só podia ceder verdadeiramente ao peso de si próprio quando se achava só no colchão. De outra forma, o privilégio da intimidade era demasiado espaçoso na sua cama. Não havia como fechar-lhe os olhos sem sentir culpa por não participar de tamanho festim. E nas semanas que se seguiam contorcia-se com dores, num divã, onde alguém sem rosto lhe falava da separação originária dos continentes e lhe perguntava porque motivo nunca ele tinha convidado nenhuma mulher para ir ao cinema... e comprar pipocas.