30.1.07

Mood: Ben Harper, Suzie Blue



Foto: Geoffroy Demarquet



És digna de cada dor de cabeça que me ofereces.
... se saberás da imensa enxaqueca que isso acresce, pergunto-me.






24.1.07

John Cassavettes


Há dias em que nos congratulamos pela decisão de ficar em casa e pela aleatoriedade do zapping nos ter conduzido até uma programação que vem sossegar curiosidades de há muito. É o momento de contorção ronrronante dentro da manta-para-ver-televisão. Percebi que andava faminta. Adoro cinema. Reformulo, adoro bom cinema, venha ele de onde vier. Mas que venha. Bom cinema... Conceito altamente discutível é certo, sobretudo uma vez enraízado o falso princípio de tolerância de que os 'gostos não se discutem'. Ah, discutem pois. E não é isso um sinal supremo de respeito? Articular uma argumentação fundamentada, sentida e acesa acerca de uma produção não é a mais respeitosa das deferências? Para o mal ou para o bem, eu acho. (Não que numa ocasião ou outra não tenha recorrido à expressão já como último recurso. Shiuuu.) Mas falava de zapping e do feliz acaso de numa destas noites um canal da cabo ter emitido um programa dedicado ao cinema independente. O conceito baralha-me, confesso. Não percebi bem ainda de que relações de dependência e independência podemos de facto aqui falar, mas não discuto. Sou uma curiosa, com uma dose considerável de fascínio e outra ainda maior de desconhecimento assumido.
Um dos cineastas que mais curiosidade me têm despertado é o incontornável John Cassavettes, devidamente referenciado também nessa noite. Ficou-me daquele programa um momento em particular que se prende com a concepção deste autor a respeito da realização, e na essência, acerca da arte em geral. Já na actualidade, um dos seus colaboradores de então, aparecia agora enquadrado e focado num primeiro plano. Contava ele que, numa ocasião enquanto filmava uma cena, e procurando Cassavettes dar um ritmo e uma 'lente' mais humana ao filme, lhe deu um valente encontrão sem aviso, e com toda a segurança no tal cotovelo clarificou: "vês? A vida é mais assim, não tão linear e direita. É isto que nós queremos captar". Cassavettes aparentemente odiava o tecnicismo, sobretudo aquele ao serviço de imagens que destituíam o retrato humano das suas características mais estruturais e espontâneas. Foi por isso considerado o pioneiro do cinema verité na América. Ficava a sensação de que o cineasta se contorcia perante as personagens bonitas, plásticas, e não-neuróticas que a mainstream vendia, e que considerava isto de facto ofensivo para a inteligência de um público que não se reconhecia de forma satisfatória na vivência psicológica diária daquelas figuras.
Ficava-me uma sensação interna de encaixe, a de que havia verdade inquestionável nesta sua convicção.
Por tudo isto aquele encontrão parece muito mais do que isso mesmo, é na realidade uma aproximação de genialidade que empurra a produção artística deste século de encontro ao Homem, e para aquilo que lhe é de facto significativo. Venha de Cassavettes ou de qualquer outro artista contemporâneo. Engraçado como isto é comum às várias vertentes de expressão artística, e válido também para a literatura infantil por exemplo, algo que me tem sido próximo nos últimos tempos, e por isso perdoem o salto. Tudo indica que, apesar da fantasia patente na literatura tradicional dedicada às crianças, (necessária para que a realidade factual não agrida a sensibilidade ainda imatura das mesmas) os dilemas essenciais de que esses registos tratam são aqueles que as afectam mais directamente. Faz sentido portanto que pesquisemos na expressão criativa e na produção artística aquilo com o qual estamos ou somos ressonantes. Parece uma dinâmica óbvia. Mas isso nem sempre esteve muito claro na sétima arte, ainda que possamos assumir também que, em muitos momentos, ela se limitou a adequar-se às fantasias de desejo e evasão do grande público, dando resposta à necessidade colectiva de trocar uma realidade dura por uma fantasia mais prazerosa- como é o caso do glamour do cinema hollywoodesco aquando da Segunda Grande Guerra- igualmente legítimo do ponto de vista artístico.
Não obstante todas as excepções, e todos os contornos mais complexos, abençoados encontrões, estes dos artistas... que nos vão recordando de que tecido fibroso somos feitos.

19.1.07

Mood: Björk, Human Behavior

Engolir-te sem mastigar,
ferir-te vezes sem fim
morder-te a dor sem magoar
Apenas para que sentisses

que o que te é externo
ocupa um certo espaço
Comove, o desprendimento

que dedicas num abraço
Quanto às coisas esquisitas

não dignas da tua atenção
e nunca mais bonitas

que o teu fundo umbigo
Faz um ligeiro esforço

para rodar esse pescoço
Bastará um bocadinho.

Olha nas imediações
Vê que desinteressante teu ego

perdido em convicções
O ruído da própria voz

eloquente em lamentos
Parásses para pensar menos

nesses cotões pequenos
Limpasses esse lixo maior que

sempre crias em teu redor
Não sabes nada que não te seja idêntico
És o objecto partido e não autêntico
Um compromisso faltoso.

Discurso direito e zeloso
por verdades de moldura.

A realidade é que sem esforço
teu raciocínio abate e logo fura
Dispensa a zanga de divã

se te levantas depois
apenas para pregar sermões,

para arrastar a apatia
como não sendo tua sequer.

Tens material blindado de Mulher
E força desinvestida.

Oca à primeira pancada.
Culpas tudo o que mexe

por seres tão torta e vincada
Mulher, da tua responsabilidade,

nunca te ouvi lamentar.
Talvez a ser eu quem morda e faça doer
penses como é que deixaste isso acontecer.
Mordo e cedo o meu lugar.


Cumprida a função social da dentada.















Diagnóstico de uma mordida em boa altura encetada

9.1.07

Mood: (acho que isto me soa a Morphine. Ou a um rock, de refrão indignado)

How come did she got so near...my friend?

The Poor boy, he is a good boy
The bitch handles my friend like a personal toy

And he likes it so. He's a silent pet
she's got her hands all over his neck

She made him suck her finger deep
filled his void throat with burning heat

Pushed his head, swallowed up his attention
The fool took it as being affection

He delivered it all, forgot to ask
But she'll eat to the bone and feed him in last

Don't recognize my good friend no more
He squirms his paws like a loving whore

She's a bad bad woman to have around
So why the hell does he look so proud?
[So why the hell does he look so proud?]
No way out, now boy. No way out.
No way out, now boy. No way out.

She's a bad bad woman to have around
She's scratching for wounds, spilling the whisky.

She'll have him burned, fondle his hair
and blow him out like she really cared

This woman's the leader of the game
and he's the only one to blame

But he likes it so. He's a silent pet
He needs the perfect cue to leave the wrong set

Everyone gets stupid for awhile
But not my good friend who set by my side

Not so long ago we had a toast to the free
How weak can a man be? How weak can a man be?

She's a bad bad woman to have around
So why the hell does he look so proud?
[So why the hell does he look so proud?]
Get out, now boy. Fight your way out.
Get out, now boy. Fight your way out.