19.6.08

Mood: Regina Spektor, Samson

O jogo começava
a miudagem toda lá estava
No recinto surdo
um eco de percussão.

Joana a um canto apertada
inaugurava o coração
torcendo a vitória de onze
por um só João.

Suava pela bola
o homem, p'ra já rapaz
adiantando às raparigas
do que era capaz.

Ela batia palmas
abrindo alas a um festejo seu
mas João por timidez
chutou p'ra canto e encolheu.

Sublimou o embaraço
por inchaço de pavão
acenou de qualquer mão
às raparigas ao lado.

Coração pontapeado
da grande área
p'ra linha solidão
Joana zero, um-zero João.

Um dia vê-a já senhora
tanto jogos e finais depois
e em vez de uma,
agora jogavam dois.

Ela. Ainda embalava a rua
ontem pura hoje dança
O amor adulto alheio
era seu recreio de criança.

Ela. Quem dera ter-lhe dito
sempre embalara a rua
e desse querer secreto
que [ainda que a prolongamento]
a vitória fosse sua.

Joana zero, zero João
moral da história: timidez
empata o coração.



17.6.08

Brevíssimo conto do homem convencido- I

Mood- Henry Mancini, Baby elephant walk



Mário era de idade tenra. O ar altivo, só possível na fase ascendente de crescimento. A realidade da vida adulta cedo ensina que tudo aquilo que sobe, desce. Nem desconfiava disso ainda. A primeira experiência de trabalho transportava-o agora para o interior de um fato executivo tão desajustadamente como se para dentro de um escafandro, dois tamanhos acima do seu. Era demasiado magro. Uma magreza colada secamente às costas, de mãos no cinto para prevenir eventuais desgraças. E não fosse alguém perceber da sua estranheza com tecidos vincados, esforçava-se por franzir um olhar descontraído, e estalar a língua no céu da boca para contrariar aquilo que outros diziam. Enquanto os questionava, não era questionado.

No alto dos seus vinte e poucos anos reinava pouca coisa senão meia dúzia de cabelitos, sobreviventes corajosos à perseguição genética da calvície. Penteava-os, dono de si e desses fios solitários, enfiando logo depois as mãos a pique nos bolsos, ensaiando uma elegância empresarial, que se afundava de imediato nas calças vincadas que lhe fugiam pela magreza adolescente.

Era contudo já herdeiro de uma educação exigente e denotava cultura acima da média, denunciando, não-poucas vezes, toda uma linhagem familiar de psicólogos aos quais, pasme, tinha conseguido sobreviver sem grande mácula. Nada para além da usual intelectualidade neurótica e do narcisismo de patinho feio, característico dos filhos de excelsos professoresdoutores da cátedra. Mas a verdade é que Mário não era 'um chato'. Tinha aliás uma graça natural.

Apresentou-se-me como convencido assumido, e que o era porque sabia que na maioria das vezes fazia tudo... mesmo... melhor do que os outros. Portanto, não lhe fazia sentido ser preconceituoso consigo próprio, estava claro. E ajeitava a gravata, navegando logo de seguida mais um pouco nos bolsos das calças engomadas. Tinha uma honestidade castiça, que não provocaria fúria em nenhum lugar do mundo, e um mau hálito assustador. Só o olfacto de homem convencido recusa o agitar de salvação de uma caixa de pastilhas e ainda assume o tom moralista de advertência: "faz mal aos dentes". Mas o Mário podia ter mau hálito e até uma voz medianamente fanhosa, que a tinha. Era boa companhia.

Falava pela sua vez, e pela vez do interlocutor, o que, nos dias de maior aborrecimento e cansaço, me preenchia com a boa ilusão de que estava a conversar activamente, apesar de demasiada exausta para proferir um som que fosse. Interiormente agradecia-lhe. Ao regressarmos cada um para sua casa, no final de dia, eu acompanhava o seu "monólogo assistido", cerebralmente, e na minha cabeça somavam-se trailers, bandas sonoras e cenas clássicas pois tinha uma cultura cinematográfica e musical impressionante.

Mostrava músicas que gostava, filmes que tinha visto, géneros que o fascinavam. Entenda-se: o Mário podia ter mau hálito, porque conversar com ele era bom. Em pouco tempo já me esquecia sequer de lhe oferecer pastilhas, e passando mais algum, tê-lo-ia adoptado, com toda a segurança. No meio de músicas, frequentemente expunha a gravata à procura de aprovação ou reprovação estética por parte da mulher mais velha que ganhara a sua consideração ao assumir o uso da saia e o gosto por cognac. Elogiava-me os vestidos, e os vestidos apenas, na esperança calada de que tinha o charme na dose certa para um dia os poder despir. Mas porque até os convencidos são realistas rapidamente voltava à pergunta da gravata, desta feita com o tom com que se pergunta a uma mãe.
"-Siiim, essa também te fica bem."

Um dia, ao ligar-se a luz nocturna do interior do autocarro, exausta e de olhos presos nos resíduos de chuva que desciam a vidraça, apercebi-me que fazia já algum tempo que não aparecia. Convenci-me eu, convencido que era, que teria encontrado um outro escafandro mais à sua altura e diâmetro. Fiquei contente com a idéia, até chegar em surdina de corredor o boato de que alguém o tinha dispensado das suas funções. Ao perguntar porquê responderam: " Disseram-lhe... com jeitinho... que ele não tinha muito jeito para falar com pessoas".

Este mundo é demasiado duro, até para os convencidos.