Mood: Joanna Newsom, Erin



Foto: John Drysdale

Guardei-te tantas vezes, em choros engasgados no colo, aquelas em que ralhei, em que te afastaste. Guardei-te tantas vezes, quando te deitei, olhos já cerrados, ainda na fantasia de um conto; no fascínio da primeira letra, na teimosia de sabotar os t.p.c, na insistência de sopas más, de escuros que não fazem mal aos pequeninos. "Quando estás cá não há fantasmas". Juntas, corremos com eles à chinelada. Guardei-te sempre...à saída da aula de dança, à saída do banho com a toalha quente, nas muitas brincadeiras de leões maus, mães protectoras, bolos e chá, marionetas, cócegas e gargalhadas, nas músicas que só tu sabes até ao fim. Guardei sempre na minha mão grande de crescida a tua, pequenina, lambuzada com chocolate. Dói despedir num abraço, aquele que vem depois de um desenho
feito para nós. Será que me guardas como eu a ti?...na parede, no peito? "Dás-me um abraço docinho e apertado... para me lembrar quando tiver muitas saudades?" Peguei nela ao colo, naqueles cinco anos de menina, e ao trazê-la a mim um aperto forte cercou-me o pescoço, uma mãozinha pequenina tacteou uma festinha desajeitada nas minhas costas, e desceu longamente numa madeixa do meu cabelo. Senti-me respirar de novo, mais leve. Cruzámos...ali, nos abraços apertados todas as pequenas guerras e conquistas, demos todos os beijinhos doces,
e as palavras meigas na intimidade serena das bochechas. Daquele abraço lento nasceu-me no colo um embalar demorado e selámos tudo o que nos aproximou. Não há despedida mais dorida do que de uma criança que se gosta demais. Por vezes a maternidade está só no coração. O que fica sempre são sorrisos, um colo à espera do reencontro.

Que todos os leões que a esperam sejam mansos.

Para os "meus" meninos, o M. e a M.

Comentários

Anone y Mu disse…
Os momentos com as "nossas" crianças são unicos. O choro e a tristeza de uma criança nessas idades provocados pela nossa ausencia são puros, sinceros. Os momentos que passaste com eles, o descobrir de todas as pequenas grandes coisas que mais ninguem passou nem vai passar são apenas vossos.
Concerteza que o M. e a M. te vão guardar no coração deles assim como eles estão no teu. Mas mantém o contacto, não deixes que eles se esqueçam visualmente de ti.
Beijo grande.
Andreia disse…
deixo-te aqui só um sorriso. Foi o que me deste a mim :)
Princesa* disse…
Vieram-me as lágrimas aos olhos ;) Lindo
Arranjei Joanna Newsom depois de a ler aqui. É a esse som que se deve ler este post. Porque ambos são brilhantes, porque ambos nos mexem por dentro e não deixam que isso seja inócuo.
legivel disse…
Um momento de partilha muito bom; ou o o outro lado da Mood.

Beijos.
polegar disse…
uma doçura

:)
ebola disse…
Isso de que falas é eterno. :)*
mariah1979 disse…
Gostei do poema, principalmente dessa parte assim: "todas as palavras meigas
na intimidade serena das bochechas"

É que gosto de poemas assim. As rimas se tornam desnecessárias. As palavras são doces e concretas. A gente não fica com o pensamento vago, querendo adivinhar o que o poeta quis dizer. Gosto dessa sensação de intimidade, de entrega, de sentimento, quando leio um poema, e foi isso o que encontrei nesse.
Mood,
Gostava que passasses lá no "ATORDOADAS" para "comeres" uma fatia de bolo pelo 1º aniversário.
Bjs.
Lana disse…
mim passou ap dar besu e deparo-me com essa foto..ohhh...é tao sweet...ja tinha saudades dela ^^
Mikado disse…
Cada texto, poema tem uma significação diferente para quem o lê, interpretei o teu texto como um reencontro com a que criança que foste ou que ainda és. Conservo a criança que fui em mim, num lugar escondido, porque o mundo dos adultos tem pouco espaço para a inocência de um beijo, de uma carícia de quem vê o mundo a cores.
Morsa disse…
Já li o teu blog (não na totalidade mas prontos) e já fui deixar o meu bitaite ao outro também!
Também já fiz a resenha do Sábado! Espero que gostes

Beijokinhas grandes
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